terça-feira, 23 de junho de 2015

Com urubucaá não tem urucubaca

Urucubaca, como se sabe, é um azar dos grandes, daqueles que envolvem doenças e acidentes em série. Já urubucaá é o nome tupi de algumas espécies de trepadeiras do gênero Aristolochia, nativas das matas brasileiras, sul americanas e centro-americanas.

Foto: Liana John (fruto de uma planta do gênero Aristolochia da Mata Atlântica de Sudeste)


O significado do nome é “planta de urubu”, provavelmente por causa do aspecto do fruto, semelhante ao pescoço pelado e enrugado do urubu. Ou parecido com um papo-de-peru, se considerarmos a interpretação caipira. Ou ainda com as “partes” masculinas, no entendimento de quem a chama de capa-homem ou cipó-mil-homens.

Seja qual for a ave ou a parte do corpo assemelhada, o fato é que diversas espécies de Aristolochia gozam de boa reputação popular contra muita coisa ruim, de picadas de serpentes e infecções a problemas de tireoide, baço, fígado e testículos.

No Sul, há quem tome chá da planta ou inclua folhas no chimarrão e, em Sergipe, muita gente faz infusão na cachaça. Definitivamente, não é uma boa ideia, devido à toxicidade de uma substância chamada ácido aristolóquico, presente em todas as espécies desse gênero de planta. Esse ácido, de cheiro forte e sabor amargo, é capaz de paralisar os rins e acumula no fígado, causando grande dano.

Já os emplastros de uso externo, feitos com a planta macerada e argila, podem se revelar eficazes como antissépticos e na cicatrização de ulcerações crônicas, assim como alguns componentes isolados a partir de extratos de base alcoólica servem para usos tópicos bem específicos.

A pesquisadora panamenha Isela González Rodríguez estudou os efeitos antiofídicos de Aristolochia sprucei, em seu mestrado em Ciências Farmacêuticas, realizado na Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto (SP). Ela chegou a testar vários compostos, isolados das folhas e do caule, contra os diferentes efeitos das peçonhas de uma serpente do Panamá (Bothrops asper) e da nossa jararacuçu (Bothrops jararacussu). E constatou potencial para a inibição de edemas e hemorragias e para a neutralização das miotoxinas, que levam à necrose dos músculos.

“Os ensaios foram feitos com os componentes isolados, separadamente”, conta Isela. “Seria necessário dar continuidade à pesquisa para saber de que maneira e em que dosagens os extratos e os compostos isolados poderiam ser utilizados. Lembrando que eles não substituem, mas seriam suplementos do soro antiofídico, para aumentar a eficácia no tratamento dos efeitos tóxicos locais da peçonha das serpentes”. Um dos componentes mais promissores foi justamente o ácido aristolóquico, capaz de neutralizar as miotoxinas, em uso tópico (no local da picada).

A realização dos testes contou com recursos de institutos de pesquisa do Panamá e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em seu doutorado, porém, Isela Rodríguez mudou de ramo e passou a estudar Toxicologia Social. A pesquisa sobre os efeitos antiofídicos de Aristolochia, portanto, devem prosseguir “sob nova direção”.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o microbiologista Davi Oliveira e Silva também estudou uma planta do mesmo gênero, originária de Sergipe: Aristolochia cymbifera. Ele trabalhou no fracionamento dos extratos etenólicos (à base de álcool) da planta, em seu mestrado, sob orientação de Celuta Sales Alviano e co-orientação de Daniela Sales Alviano e Maria Auxiliadora Kaplan. O pesquisador observou atividades antibacterianas, antifúngicas e antivirais. “Trabalhei apenas na primeira fase, pré-clínica in vitro, de um tipo de pesquisa de longa duração, que ainda deve se prolongar por alguns anos”, ressalva Davi. Mesmo assim, as descobertas foram significativas e devem motivar novos estudos.

A atividade antibacteriana, por exemplo, ocorre frente a Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA) e Streptococcus mutans. A primeira é uma dessas superbactérias multiresistentes, causadoras de infecções hospitalares. Um relatório realizado em Oxford, na Inglaterra, apontou a morte de 34% dos pacientes infectados por ela, até 30 dias após a infecção. A segunda é uma bactéria comum na boca, associada às cáries dentárias, sobretudo quando há queda de imunidade ou desequilíbrio microbiológico no ambiente bucal.

As ações antifúngicas se devem a uma substância chamada espatulenol, encontrada na planta. Em doses moderadas, o espatulenol é microbioestático, ou seja, inibe o crescimento dos fungos filamentosos Fonsecaea pedrosoi, causador de um tipo de micose de pele bem persistente comum em zonas rurais, na pele de quem trabalha com o solo, e Trichophyton rubrum, o vilão do pé-de-atleta. Em doses maiores, a mesma substância é microbicida: mata os tais fungos filamentosos. Essa atividade foi obtida com uma fração do extrato da planta que já não continha o ácido aristolóquico.

E, finalmente, o efeito antiviral é contra o Herpes Simples do tipo 1 (HSV1), um vírus que caminha pelas terminações nervosas e se manifesta como bolhas e feridas doloridas, sobretudo na boca e nos genitais. Os testes com o Herpes tipo 2 também foram feitos, mas não mostraram atividade. “Mesmo assim, a atividade observada é importante, pois pode nos dar uma opção ao único medicamento de uso tópico contra essas bolhas e feridas, sendo que já existem cepas do vírus HSV1 resistentes ao princípio ativo”, acrescenta o microbiologista, apostando num fitoterápico para esta finalidade.

A pesquisa de Davi Oliveira e Silva foi financiada com uma bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e o laboratório da UFRJ onde ele trabalhou conta com recursos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e da Finep – Inovação e Pesquisa.

Em todos os casos, ainda é preciso avaliar a toxicidade dos componentes da planta e a dosagem efetiva e segura a ser recomendada, o que demora ainda uns bons anos. Mas não há dúvida do imenso potencial do tal urubucaá contra todas essas urucubacas.

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