sábado, 2 de maio de 2015

O Nadador: Conheçam o Pato-Mergulhão

Na serra da Canastra, em Minas Gerais, o pato-mergulhão tem seu habitat natural.

Água limpa, bicho livre: não há registro de patos-mergulhões vivendo em cativeiro. Embora na Canastra existem indícios de aumento de sua população, a prioridade dos cientistas hoje é o estudo genético da espécie.


Se fosse criado um ranking que definisse os animais mais exigentes com a qualidade de seu habitat, o pato-mergulhão estaria entre os primeiros colocados da lista.

O Mergus octosetaceussobrevive em ecossistemas ambientalmente equilibrados, em especial aqueles em que há cursos d'água limpos e transparentes. Por causa dessa peculiaridade - e dada a delicada situação dos recursos hídricos do planeta no século 21 -, não é de espantar que essa ave aquática seja classificada como "criticamente em perigo"  pela IUCN, nas listas das espécies consideradas em sério risco de extinção.

No mundo todo restam, no máximo, 250 deles tentando subsistir em algumas áreas do interior da Argentina, do Paraguai e do Brasil. Por aqui, os patos-mergulhões ainda são avistados de forma esparsa na chapada dos Veadeiros, em Goiás, e no Jalapão, no Tocantins.

Pare evitar predadores, a fêmea choca os ovos dentro de tocas. 
Só sai de lá para alimentar-se.
O maior grupo, com cerca de 100 espécimes, resiste na serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, em um trecho perto dos limites do parque nacional homônimo. A razão principal dessa surpreendente população está na excelência das águas do São Francisco e de alguns de seus afluentes em um pequeno trecho que vai do alto da serra até a parte baixa da cachoeira Casca d'Anta - o cartão-postal do parque -, em um raio de 50 quilômetros desde a sua nascente.

Conhecido como o "rio da integração nacional" por banhar cinco estados e abastecer mais de 13 milhões de pessoas ao longo de 2,7 mil quilômetros, o São Francisco sofre com a poluição em vários trechos de seu percurso.

Na Canastra, todavia, o pato-mergulhão ainda encontra os requisitos ideais para viver bem. "A espécie necessita de correntes d'água 100% limpas, protegidas por matas ciliares preservadas e com abundância de peixes, em especial o lambari, seu prato preferido", explica Flávia Ribeiro, bióloga do projeto Pato Aqui, Água Acolá, da organização não governamental Instituto Terra Brasilis, que, desde 2001, se dedica ao estudo e à proteção da espécie. "Essa é a razão pela qual o pato-mergulhão é considerado um ‘bioindicador'. É como se a ave fosse um selo vivo de qualidade ambiental que atesta o equilíbrio ecológico do território em que habita", explica a bióloga.

O penacho no alto da cabeça, de tonalidade 
verde metálico, identifica a espécie
O trabalho de Flávia e seus colegas envolve uma rotina incansável de localização e observação dos patos à beira do São Francisco. O monitoramento inclui caminhadas de 3 a 6 quilômetros pelas margens do rio, muitas vezes dentro dele. Mesmo assim, a pesquisadora admite que ainda não se conhecem muitos detalhes sobre os hábitos da espécie, descrita pela primeira vez em 1817 mas até hoje pouco estudada. "Sabemos que são sobretudo animais monogâmicos, com período reprodutivo entre maio e setembro, quando chocam até oito ovos por ninhada. Os filhotes nascem depois de pouco mais de 30 dias de incubação e permanecem com os pais por até dez meses", conta Flávia.

Ao contrário de outras regiões brasileiras em que a espécie ocorre, os pesquisadores constataram aumento na população dos patos-mergulhões na Canastra nos últimos anos.

No passado, o garimpo do diamante ameaçava as aves - o resultado da atividade era a destruição de seu habitat pluvial pelo depósito de sedimentos. Com o fim da corrida ao minério em 1995, a população voltou a crescer.

O vistoso penacho é uma marca da ave aquática 
de beleza discreta, que exibe plumagem escura 
de tonalidade verde metálico na cabeça. 
Não é fácil avistá-lo: além de raro, o pato-mergulhão é arisco.
Atualmente, sabe-se que os mais terríveis inimigos da ave são a retirada da mata ciliar, o assoreamento do São Francisco, a expansão da agropecuária e o uso de agrotóxicos. "O crescimento do turismo desorganizado e a prática de esportes radicais nas proximidades de seu território também tiram o sossego desses animais, arredios e assustadiços", conta Lívia Lins, coordenadora do Pato Aqui, Água Acolá.

Por tudo isso, o programa investe em outra frente de batalha para salvar o sensível pato-mergulhão: a busca de aliados para a preservação. Os pesquisadores realizam um trabalho de educação ambiental e conscientização porta a porta entre moradores das imediações e produtores rurais - a região, forrada de pequenas fazendas, é famosa por seus queijos.

A estratégia consiste em entregar calendários e folhetos que ensinam às pessoas como identificar a espécie - muitas vezes o pato é confundido com o biguá, outra ave aquática mas comum em todo o Brasil. Juntamente com esse material informativo, consta uma ficha destacável em que podem ser feitas anotações sobre o avistamento dos animais.

Descrito no começo do século 19, o pato-mergulhão só agora começa a ser melhor estudado. Sua ocorrência é limitada a zonas esparsas da Argentina - onde o primeiro ninho foi encontrado em 1951 - e do Paraguai - o último registro dele no país foi em 1984. No Brasil é avistado nas regiões do Jalapão, na chapada dos Veadeiros e nas áreas úmidas da serra da Canastra (acima), hoje o seu principal refúgio.
"A intenção é mostrar aos vizinhos do pato-mergulhão que a espécie, tanto quanto todos nós, depende de água limpa para sobreviver. Estamos tentando fazê-los perceber que proteger o pato é também garantir a pureza dos mananciais para abastecimento", diz Lívia.

O próximo passo é traçar uma análise minuciosa das condições das cabeceiras do São Francisco na serra da Canastra para encontrar meios de garantir limpidez de suas águas e abundância de peixes. Só assim será possível livrar a ave do estigma de estar entre as mais raras do planeta.

4 comentários:

  1. Uilmara Machado de Melo4 de maio de 2015 13:34

    "É como se a ave fosse um selo vivo de qualidade ambiental que atesta o equilíbrio ecológico do território em que habita" - Flávia Ribeiro.
    "A intenção é mostrar aos vizinhos do pato-mergulhão que a espécie, tanto quanto todos nós, depende de água limpa para sobreviver. Estamos tentando fazê-los perceber que proteger o pato é também garantir a pureza dos mananciais para abastecimento" - Lívia Lins.
    ESPEREMOS QUE TUDO DÊ CERTO!!!

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    1. Tomará não é mesmo Uilmara? Para um animal incrível desse, com nossa situação de poluição no mundo, é triste saber que os dias deles podem estar contados ='/

      Abraços carinhosos, Equipe BioOrbis.

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  2. A extinção de espécies é um processo natural, porém o homem vem acelerando de forma exponencial este processo. A quantidade de espécies que foram extintas pela ação do homem é grande. Pior de tudo é que continua. Uma triste informação dada pelos cientistas é que estamos próximos de uma extinção em massa. É fácil explicar o porque. Temos como um dos elementos é o uso de combustíveis fósseis de forma descontrolada, que teve início no Pós Revolução Industrial e que vem aumentando desde então. Como resultado, aquecimento global, junto com todas as suas devidas consequências. Como ingrediente negativo temos a diminuição da floresta amazônica que tem contribuição gigantesca na temperatura do nosso planeta, além de contribuir na geração de chuvas para diversas regiões além de suas fronteiras. O fator ocupação e destruição dos espaços para ocupação e uso de matérias primas, impacta na extinção das espécies. Minha opinião, controle de natalidade, com uma ação a nível mundial. A Terra não tem como suprir os aumentos populacionais que são projetados. Onde temo a robotização que já e terá diminuição de necessidade de mão de obra humana. O aumento populacional afetara uma qualidade de vida adequada. Itens básicos como oferta de água para consumo humano, geração de energia, agricultura e indústria etc serão duramente diminuídas. Outro fator grave que atua na extinção de espécies é a poluição na sua forma ampla, Da atmosfera, rios, lagos e oceanos. Quando eu falo do homem, falo dos governos que não agem de forma a impedir os danos e impactos no meio ambiente. Tudo é feito em prol dos seres humanos, sem medir as consequências. Parte disso é o capital acima da natureza. Ou seja, tudo por dinheiro. Tudo para se deixar um legado positivo para as gerações futuras. Deixarmos, que as próximas gerações tenham qualidade de vida. Viverem em planeta saudável. Relativo as espécies que elas tenham o devido respeito e que continuem a existirem, até o dia que o seu ciclo natural as extingam. Todas as autoridades , a nível mundial, devem agir de forma concreta na preservação dos ambientes remanescentes e em paralelo aumentar novas áreas, tanto em terra quanto nos ambientes marinhos. Isso como paliativo.

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    1. Olá Pedro, extraordinário comentário, disse praticamente resumidamente tudo sobre a extinção e do que está ocorrendo no Brasil e no mundo. No caso do Brasil já um pouco pior, pois tendo a maior biodiversidade do planete, os governantes tinham que investir na preservação e conservação das espécies, mas é triste amigo, muito triste ver o descaço, a falta de investimento em pesquisas e tudo mais relacionado a isso. Nós do BioOrbis que dizemos, somos biólogos formados e a única oportunidade boa que tivemos em divulgar e estudar as espécies, a ciência e a biologia, foi aqui, atrás do blog.

      Bom o que podemos fazer é documentar ao máximo que estas incríveis espécies um dia existiram, pois o pensamento dos governantes não irá mudar.

      Grande abraço, e agradecemos muito pelo comentário.

      Equipe BioOrbis.

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