segunda-feira, 11 de maio de 2015

Árvores: amigas da cidade

Sua presença no espaço urbano é vital. As quedas e os transtornos pelos quais São Paulo tem passado nesse último verão fazem renascer discussão sobre como estamos maltratando a natureza e sofrendo as consequências.


Esta imagem da Praça Waldir Azevedo, na zona oeste paulistana, compõe uma cena cada vez mais rara. Ela e tantos outros espaços e ruas cheios de verde ganham enorme importância em tempos de crise hídrica. "A vegetação é a fábrica de chuvas. Sem ela, não há umidade suficiente capaz de gerar as precipitações necessárias à manutenção de rios e represas", explica Ricardo Cardim, mestre em botânica pela Universidade de São Paulo (USP). E as árvores desempenham papel fundamental nesse processo. "Por volta de 70% da água que cai do céu é amortecida pelas copas, seguindo lentamente até o solo, o que evita a erosão. Quando não existe essa barreira natural, a chuva provoca enxurradas e carrega os sedimentos ao fundo dos rios e córregos, causando o assoreamento", completa o especialista.

Assim fica fácil entender por que a metrópole - dotada de pouca vegetação e muito concreto - sofre tanto com as tempestades de verão. Além das enchentes, o expressivo volume de árvores caídas comprova, infelizmente, o crescimento desprovido de projeto urbanístico. "No passado, a arborização das vias era feita espontaneamente pelas pessoas com plantas recebidas de parentes e vizinhos. Por isso a grande incidência de abacateiros, resultado das experiências das aulas de ciências, em que os alunos colocavam sementes da fruta para germinar e, depois, a muda ia para a calçada", conta o paisagista Benedito Abbud, que, na década de 80, participou de um levantamento sobre o tema. Tal frutífera, segundo ele, tem raízes profundas, e seu fruto pesado pode machucar quem passa embaixo dela.

"Nos anos 50 e 60, era moda cultivar figueiras em vaso em formato de cone, porém não se desconfiava que elas logo estariam gigantes. Com o crescimento, a espécie acabava quebrando o recipiente e era transplantada para o passeio público. O resultado foi a invasão de figueiras. Imensas hoje, elas entopem o encanamento subterrâneo, quebram o asfalto e as calçadas", exemplifica. Por essas e outras, novos projetos de paisagismo precisam levar em conta o plantio de espécies nativas da Mata Atlântica. Ricardo sugere, como alternativa, o cambuci, símbolo da cidade e um tipo de pequeno porte (até 5 m), além do pau-viola (até 8 m), com frutos vermelhos, e da copaíba (até 12 m), madeira de lei bastante resistente.

RAIO X DAS QUEDAS

Quatro tempestades de verão conseguiram derrubar quase a metade do número normal de árvores tombadas dentro de um ano:

- Em apenas três meses (de 11 de novembro de 2014 a 4 de fevereiro de 2015), 1 765 árvores* caíram na cidade de são Paulo;
- Desse total, segundo a prefeitura, 63%* estavam saudáveis;
- 43%* das quedas aconteceram em apenas quatro tempestades;
- O Parque Ibirapuera fechou, pois 25 espécies de grande porte desmoronaram no dia 28 de dezembro de 2014*;
- A cidade conta com 14,07 m2** de área verde por habitante;
- A média de quedas de árvores é de 2 mil* por ano;
- A prefeitura diz que realizou em 2014 102 mil podas e 14 mil* remoções;
- A gestão atual plantou 211 650 mudas**, o equivalente a 23,5% das 900 mil prometidas em campanha.
*Dados divulgados pela prefeitura de São Paulo em 4 de fevereiro de 2015.
**Dados disponíveis no site planejasampa.prefeitura.sp.gov.br

E ELAS VIERAM ABAIXO

Eventos climáticos extremos - eis a justificativa da prefeitura para os transtornos na cidade entre novembro de 2014 e fevereiro de 2015

Desafio você, caro leitor, a afirmar que não deparou pelo menos com uma árvore tombada durante as tempestades de verão. Morador do bairro do Butantã, na zona oeste paulistana, o revisor de texto José Américo Justo é um dos felizardos de viver numa rua arborizada. Porém, entre o Natal e o Ano-Novo do ano passado, passou por momentos de terror por causa de um temporal de 12 minutos. 

"Galhos da sibipiruna diante da minha casa caíram sobre a fiação e a rua, causando curto-circuito e faíscas para todo lado.

Na praça em frente e na residência vizinha, vários exemplares desabaram", recorda. Simplificando a novela, a AES Eletropaulo levou quatro dias para chegar, e a prefeitura, mais de 20 dias, mesmo sendo situação de emergência. A poda deixou a sibipiruna torta, e, até hoje, José Américo aguarda o laudo sobre a saúde da espécie. O fim da estação, nos últimos dias de março, traz alívio com a diminuição das precipitações violentas, mas não garante o fim do problema.

O tópico "Raio X das árvores" (acima) mostra a situação no período mais crítico e as ações de manutenção divulgadas pela prefeitura. A secretaria de subprefeituras forneceu o seguinte comunicado: "A prefeitura de São Paulo cuida das espécies arbóreas que estão em parques, jardins, praças, canteiros e vias públicas por meio dos serviços de poda, remoção, transplante, compensação ambiental, plantio e expedição de autorização para manejo em áreas particulares. Todas as intervenções são balizadas por legislação específica e publicadas no Diário Oficial da Cidade de São Paulo".

O PLANO DE ARBORIZAÇÃO EM VIGOR

Pela lei, o cidadão não pode plantar árvores em áreas públicas, mas deve ficar de olho e cobrar ações do município

Uma nova cartilha foi lançada pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em janeiro deste ano. Nela está descrita uma centena de espécies indicadas para calçadas e áreas públicas. Paradoxalmente, no entanto, esse trabalho apenas pode ser executado pela própria prefeitura. Ao manifestar o pedido, um técnico visitará o local. Via de regra, só devem ser cultivadas árvores em passeio com largura a começar de 1,90 m, o que possibilita espaço para o desenvolvimento da planta sem comprometer a passagem dos pedestres. Ao cidadão é permitido contribuir com vegetação em áreas particulares, jardins e pátios.


A prefeitura mantém uma campanha permanente de distribuição de mudas em parques e viveiros. No caso das podas, o serviço é gratuito, e nenhuma empresa tem a permissão de realizar ou cobrar por ele. Quem o fizer estará desrespeitando a Lei nº 10.365, cometendo crime ambiental sujeito a multa. A solicitação pode ser feita nas seguintes situações: poda de formação (confere forma adequada à árvore durante seu desenvolvimento); poda de limpeza (elimina ramos doentes ou danificados; caule seco ou quebradiço, que pode ser sinal de cupim; e galhos secos, com possível ataque de brocas); poda de emergência (retira galhos que colocam em risco a segurança); e poda de adequação (ajusta o crescimento da espécie ao local onde está instalada).

TRÂMITES LEGAIS

Conheça o caminho para solicitar podas e anote os contatos oficiais.

Como primeiro passo, o cidadão deve preencher um requerimento (pessoalmente na subprefeitura de sua região ou pelo site) e anexar os motivos, as informações sobre a espécie, um desenho ou esboço da localização da árvore no terreno, a cópia do carnê do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e um comprovante de endereço. A prefeitura, então, enviará um engenheiro agrônomo ao local para analisar o caso. O prazo é definido de acordo com a demanda.

Telefones: 156. Em caso de emergência, ligue para os bombeiros (193) ou a Defesa Civil (199)


AS QUERIDINHAS DAS RUAS

Belas e floridas, estas espécies nativas são resistentes e mais indicadas:

Ipê-rosa-anão (Handroanthus heptaphyllus var. paulensis): de pequeno porte (de 3 a 5 m). Flores rosa no inverno e na primavera

Ipê-amarelo (Handroanthus chrysotrichus): de médio porte (de 4 a 10 m). Flores amarelas na primavera e no inverno

Quaresmeira (Tibouchina granulosa): de grande porte (de 8 a 12 m). Flores roxas aparecem no fim do verão e no outono

SERÁ O FIM DAS NATIVAS?

Ao abrir caminho para a construção de São Paulo e torná-la a região mais populosa do país, o desmatamento provocou desequilíbrio de recursos naturais

O desanimador retrato no início dos anos 2000 evidenciando que pouco restava da vegetação por aqui foi revisto recentemente pelo Instituto Florestal (IF), órgão vinculado à Secretaria do Meio Ambiente (SMA).

No Inventário Florestal da Vegetação Natural do Estado de São Paulo de 2009, a entidade aponta a diminuição no desmatamento e o registro de cerca de 300 mil fragmentos de floresta natural a ocupar 17,5% do território paulista (dados obtidos por novas técnicas de mapeamento por satélite).

A notícia é boa, mas o ritmo de recuperação precisa acelerar se quisermos combater a falta de água. "Nova York investiu US$ 2 bilhões na restauração das matas ciliares, custo de seis a oito vezes menor do que a busca de volumes distantes ou o tratamento do líquido poluído", conta Samuel Barrêto, coordenador do Movimento Água para São Paulo (MApSP), da The Nature Conservancy (TNC), a maior organização de conservação ambiental do mundo.

A TNC atua na capital paulista em parceria com a SMA e a Casa Civil. "Detectamos os locais prioritários nas Áreas de Proteção Permanente [APPs] e fazemos a ponte entre o governo, os proprietários de terras e as empresas", explica Samuel. Atualmente, eles trabalham para recobrir 12 mil hectares devastados e corrigir processos erosivos em 2 mil hectares nas bacias dos rios Piracicaba, Capivari, Jundiaí e do Alto Tietê. "Essa ação diminui em 50% o assoreamento e evita alto gasto com dragagem", complementa.

O CIDADÃO SE MOBILIZA

Cada vez mais preocupados com o bem viver nas cidades, grupos de bairro, institutos e ONGs trabalham de diferentes maneiras em prol de nossas árvores

No último janeiro, a notícia chamou a atenção de todos: integrantes do movimento batizado A Batata Precisa de Você - grupo que se reúne no Largo da Batata, na zona oeste, organizando oficinas, encontros, festas e melhorias - decidiram minimizar o clima árido da praça, mesmo depois do processo de revitalização com a chegada do metrô. Resolveram, por conta própria, plantar 32 árvores nos canteiros vazios. A subprefeitura de Pinheiros, a responsável pela manutenção ali, perdoou os "infratores" e prometeu ajudar.

O grupo se organiza pelo Facebook, ponto de encontro de outras iniciativas a favor da sustentabilidade. Digite, por exemplo, #boraplantar e descubra que dá para participar uma vez por mês de mutirões de reflorestamento das matas ciliares nas APPs. A ideia surgiu no final do ano passado com base no Movimento Urbano de Agroecologia (Muda SP). "Na primeira reunião, recebemos mudas da prefeitura por meio da Casa de Agricultura Ecológica de Parelheiros e ajudamos um produtor local na recuperação de suas terras", conta Carol Ramos, uma das organizadoras.

O contato com a natureza e a premissa de que o conhecimento é a melhor forma de ajudá-la fizeram a bióloga Juliana Gatti criar o Instituto Árvores Vivas em 2006. "A proposta é sensibilizar a população sobre a importância das árvores e sua colaboração para a qualidade de vida e o equilíbrio urbano", diz Juliana, que promove caminhadas com escolas e empresas, além de eventos como o Festival Cultivar e piqueniques para a troca de plantas e sementes. A programação está disponível na
página do Instituto Árvores Vivas.

COMO CAMINHA A COBERTURA FLORESTAL NO ESTADO PAULISTA

Levantamento do início deste século mostrava cenário assustador: restavam só 3% da vegetação natural. Ações de reflorestamento e técnicas de mapeamento modernas começaram a reverter a situação, que se mostrou um pouco melhor em 2009. Clique na imagem para ver:


2 comentários:

  1. Ótimo texto! Precisamos mesmo cobrar das prefeituras planos para inserção de árvores nas cidades, e a preservação de parques e afins, antes que seja tarde demais!
    rsenhando.blogspot.com.br

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    1. Disse tudo Gleice Sousa, precisamos mesmo cobrar, a prefeitura dar um incentivo para quem plantar uma árvore em sua calçada, fazer berçários de mudas e doar para o plantio em escala. O clima vai melhorar, a cidade ficará mais bonita, teremos uma fauna mais rica.

      Sempre há um jeito pra tudo na natureza, só temos que achar e viver em harmonia com ela.

      Equipe BioOrbis.

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