quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sistema imune não é inato

Nova pesquisa sustenta que potencial do sistema de defesa do corpo é desenvolvido, não geneticamente determinado.

 https://bio-orbis.blogspot.com/2015/02/sistema-imune-nao-e-inato.html
Tecido infectado por citomegalovirus.

VAMOS DESCOBRIR...

Algumas pessoas parecem combater a gripe melhor que outras, e poderíamos suspeitar que elas nasceram assim.

Um novo estudo de gêmeos sugere o contrário.

Em uma das análises mais abrangentes da função imune já realizadas até hoje, pesquisadores examinaram amostras de sangue de 105 pares de gêmeos saudáveis. Eles mediram as populações de células de defesa e seus mensageiros químicos, ao todo 204 parâmetros, antes e depois que os participantes receberam uma vacina contra gripe.

As diferenças em 75% dessas variáveis dependeram menos de genética que de fatores ambientais, como dieta e infecções anteriores.

A genética praticamente não influiu em como as pessoas responderam à vacina, a julgar pelos anticorpos produzidos contra o material inoculado. E, entre gêmeos idênticos, que têm o mesmo genoma, as características do sistema imune diferiram de forma mais acentuada em pares de gêmeos mais velhos que nos mais jovens.

Os resultados, divulgados em 15 de janeiro na publicação científica Cell, sugerem que hábitos e experiências de vida moldam nossas defesas corporais mais que o DNA repassado por nossos pais. 
Embora estudos anteriores com gêmeos tivessem sugerido que fatores não hereditários contribuem para algumas condições autoimunes, como esclerose múltipla, a análise mais recente foi uma das primeiras a quantificar efeitos gênicos e ambientais no sistema imune em geral.

“Ficamos surpresos com o grau de influência ambiental sobre tantos componentes”, admite Mark Davis, da Escola de Medicina da Stanford University, principal autor do novo estudo.

Uma descoberta foi particularmente impressionante.

Um único fator ambiental, uma infecção prévia com o comum citomegalovírus [pertencente à família do herpesvírus], afetou 58% dos parâmetros testados.

Embora os resultados não mostrem se essas mudanças produzem uma resposta imune geral mais forte ou mais fraca, eles indicam que “o citomegalovírus tem um efeito realmente profundo”, avalia Davis. O vírus Epstein-Barr, outro microrganismo que infecta pessoas com frequência, não teve essa consequência.

Talvez, a profunda influência de citomegalovírus no sistema imune não seja tão surpreendente.

Para sobreviver, vírus precisam sequestrar células hospedeiras de uma pessoa a fim de produzir mais partículas virais. “Eles têm de transpor barreiras físicas e inatas, então é difícil serem bem-sucedidos”, argumenta diz Peter Barry, um biólogo que estuda citomegalovírus na University of California, em Davis.

“O fato de um vírus ainda estar ativo [no corpo] significa que ele realmente é muito bom no que faz”.

De fato, o citomegalovírus aprendeu a se instalar em quase qualquer parte do corpo humano. Mas, ainda que mais de três em cada cinco adultos tenham sido infectados pelo microrganismo, a maioria não saberia disso.

Isso se deve ao fato de que aproximadamente um décimo das células T [linfócitos T ou células T pertencem a um grupo de glóbulos brancos do sangue] circulantes em uma pessoa são específicas para atacar o citomegalovírus.

“É preciso uma parcela muito grande de nosso repertório imune para manter esses vírus sob controle”, salienta Barry.

Cientistas não sabem ao certo por que o vírus Epstein-Barr, que também infecta a maioria das pessoas e permanece latente no corpo, não provoca uma resposta imune grande e contínua como faz o citomegalovírus.

É possível que o vírus Epstein-Barr infecte principalmente grandes células, ou linfócitos B, enquanto o citomegalovírus é capaz de se esconder em uma variedade de tipos celulares.

Davis e sua equipe agora estão examinando mais de perto o efeito do vírus Epstein-Barr nos parâmetros imunes dos gêmeos e planejam divulgar suas descobertas em breve.

Alguns pesquisadores acreditam que as conclusões sobre citomegalovírus poderiam explicar por que os idosos tendem a não reagir tão bem à vacina antigripal.



Células T se desenvolvem no timo [glândula situada no tórax, atrás do osso esterno]. Mas, como ela retrai com a idade e assim diminui a produção de novas células T, isso nos deixa restritos às existentes que temos em circulação.

À medida que envelhecemos, uma crescente proporção desse pool, ou conjunto de células T é direcionada ao combate de citomegalovírus, deixando menos células disponíveis para lutar contra infecções sazonais.

No estudo de Stanford, a elevada divergência de parâmetros imunes em pares de gêmeos mais velhos confere credibilidade a essa teoria, observa Barry.

Mas também há evidências que sugerem que citomegalovírus poderiam ter benefícios.

Pesquisas em camundongos mostram que animais infectados com esse vírus são mais eficientes no combate a patógenos bacterianos. E, em um estudo com macacos, pesquisadores descobriram que uma vacina baseada em citomegalovírus protegeu 50% dos animais da infecção pelo vírus da imunodeficiência símia (SIV, na sigla em inglês).

Com base no novo estudo, é difícil dizer se estar infectado com citomegalovírus é bom ou ruim para o sistema imune.

Em última análise, isso dependerá da pessoa, resume Chris Benedict, um imunologista no InstitutoLa Jollapara Alergia e Imunologia, na Califórnia.

Doenças infecciosas e distúrbios autoimunes são dois dos nossos maiores assassinos. “É sempre um ato de equilíbrio”, salienta Benedict. “O sistema imune precisa responder bem a infecções, mas não de forma tão robusta a ponto de causar autoimunidade”.

Para alguém com um sistema imune hipoativo, o citomegalovírus pode acelerar as defesas o suficiente para combater um patógeno perigoso. Mas, se as células imunes de uma pessoa se aproximam da hiperatividade, o citomegalovírus poderia lançar o sistema todo em perigo.

Ver esse microrganismo mudar sozinho uma gama tão ampla de parâmetros imunes implica cautela na interpretação de exames pessoais de DNA que alegam poder prever nosso risco para uma série de doenças, de Alzheimer a câncer.

“É óbvio que alguns tipos de mutações são más notícias, mas sequenciar seu genoma não lhe revelará tudo sobre sua saúde”, adverte Davis. “Existe uma grande interação entre seu genoma e o ambiente”.

Ele considera as novas descobertas um avanço fundamental na direção de seu objetivo final: captar essa conversa cruzada com um ensaio, ou prova de referência que meça a saúde das defesas imunes de uma pessoa no nível dos sistemas.

“Temos trabalhado em partes do sistema imune por muito tempo. Mas não entendemos muito bem como o sistema todo se encaixa”, reconhece Davis. “Agora temos as ferramentas para começar a fazer isso”.

2 comentários:

  1. Sempre suspeitei disso, e sempre vivi esta experiencia de ter uma ótima imunidade adquirida e nao herdada.

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    1. Incrível não é mesmo Robson? Agradecemos pelo comentário,

      Um grande abraço da Equipe BioOrbis.

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