domingo, 6 de setembro de 2015

Estudo revela que esgoto tratado favorece agricultura

Experimento mostrou que a economia no uso de fertilizantes nitrogenados chegou a 80% no plantio de capim.

Cerca de 70% da água usada na agricultura se destina ao consumo humano


De acordo com pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), o emprego da água de esgoto tratado (efluente) na agricultura aumenta a produtividade. Durante 15 anos, o estudo realizado pelo Núcleo de Pesquisa em Geoquímica e Geofísica da Litosfera testou as vantagens do uso dessa água, que contém minerais e nutrientes, como nitrogênio e fósforo, importantes no desenvolvimento das plantas.

Segundo o professor de geoquímica e ambiente da USP, Adolpho Melfi, a água usada atualmente na irrigação das lavouras pode ser substituída com segurança pelo efluente, o que pouparia água potável importante no abastecimento das cidades. “A agricultura utiliza praticamente 70% da água que poderia ser para o consumo humano”, disse Melfi à Agência Brasil. Atualmente, por não haver legislação que autorize o seu uso no campo, o efluente só pode ser usado na lavagem de ruas e irrigação de jardins.

As cidades de Lins e Piracicaba, no interior de São Paulo, receberam o experimento e mostraram que a economia no uso de fertilizantes nitrogenados chegou a 80% no plantio de capim, utilizado na alimentação do gado, durante um ano de baixa ocorrência de chuvas.

Durante o experimento, o capim foi irrigado com água comum e outro com esgoto tratado. Ambos receberam a mesma quantidade de fertilizante necessário para o crescimento das plantas. O resultado foi uma produtividade de 33 toneladas de capim por hectare ao ano no caso das plantas que receberam irrigação comum, e de 39 toneladas por hectare ao ano no capim irrigado com efluente.

Apesar dessa boa produtividade, Melfi explica que essa técnica precisa de atenção. “Como o efluente tem muito nitrogênio, uma parte não será aproveitada pela planta, infiltrando o solo e contaminando o lençol freático na forma de nitrato. Há também os organismos patogênicos presentes no efluente, que podem provocar problemas na saúde humana. A gente precisa ter um controle muito grande também dos metais pesados”, conta.

Uso de efluente exige atenção, por conta 
da alta concentração de nitrogênio
Uma alternativa para evitar estes metais, presentes nos dejetos de indústrias, é recolher os efluentes preferencialmente de cidades pequenas, onde o controle é mais fácil e predomina o esgoto doméstico.

O cientista ressalta que no esgoto doméstico não há a presença de metal pesado, porém em cidades pode haver outras substâncias: “Em Lins o esgoto é exclusivamente doméstico. Em Franca, por exemplo, com a indústria de couro para a fabricação de sapatos, a curtição do couro usa uma substância formada por cromo, altamente tóxico. Mas o esgoto de lá pode ser usado, porque existem duas redes separadas, uma que é esgoto industrial e outra que é doméstico”.

Vale lembrar que o simples despejo do efluente em rios também gera problemas. “Ele aumenta a presença de algas que consumem o oxigênio, resultando na eutrofização da água, que são aquelas espumas. A água também pode ficar esverdeada por causa dessas algas”, disse Melfi.

Para avaliar a novidade, o estudo ouviu a população. Segundo Adolpho Melfi, o resultado foi positivo e as pessoas entrevistadas disseram que, desde que soubessem que estava havendo o controle adequado, consumiriam os alimentos produzidos com efluentes.

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