quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Fungo e cupuaçu: dupla dinâmica contra a leishmaniose

Pomada com ácido kojico à base de triacilglicerídeos obtidos de sementes de cupuaçu pode ajudar no tratamento contra a doença.

 https://bio-orbis.blogspot.com/2015/02/fungo-e-cupuacu-dupla-dinamica-contra.html
Fungo Aspergillus flavus, à esquerda (Foto: Creative Commons) e cupuaçu, à direita (Foto: Liana John).

VAMOS DESCOBRIR...

Os fungos do gênero Aspergillus podem ser encontrados em qualquer lugar e se multiplicam com facilidade. Até demais, por sinal: quando se espalham sobre grãos de amendoim, soja ou castanha-do-Brasil produzem as famigeradas aflatoxinas, que se ligam ao DNA humano inibindo sua replicação e causando câncer. Os próprios fungos ainda podem causar aspergilose, uma doença das vias respiratórias, e diversos tipos de alergia.

Mas quando cultivados em laboratório e submetidos a processos biotecnológicos devidamente controlados, esses fungos produzem ácido kojico, uma substância de interesse para a indústria de cosméticos e com bons resultados também contra o protozoário Leishmania amazonensis, causador de um tipo de leishmaniose cutânea. Os primeiros testes in vitro e in vivo para esta finalidade foram coordenados pela biomédica e doutora em Biofísica, Edilene Oliveira da Silva, da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém.

Os protozoários L. amazonensis são transmitidos pela picada de insetos flebotomíneos. Quando entram no organismo humano estão na fase ativa, chamada de promastigota: são alongados e possuem flagelo, uma espécie de cauda que os impulsiona pela corrente sanguínea até as células de defesa (macrófagos), no interior das quais se alojam. Aí começa a segunda fase do ciclo evolutivo, chamada amastigota: eles ficam ovais, o flagelo é internalizado e não se movimentam.

Fungo Aspergillus
“No caso específico de L. amazonensis há uma característica importante, que é a inibição da resposta imunológica. Os pacientes aqui da região amazônica desenvolvem um tipo de leishmaniose que não abre a úlcera: eles ficam cheios de nódulos na pele e no interior desses nódulos está cheio de parasitas. Sem um remédio, eles ficam com a Leishmania para o resto da vida”, explica Edilene. Quando ocupa as células hospedeiras, o parasita “desliga” o mecanismo de resposta imunológica para se instalar.

Mas o ácido kojico tem efeito imunomodulador e reverte esse processo, reativando as células, o que permite que o corpo se defenda. A substância também tem ação contra a forma intracelular do parasita e provocou redução de 92,1% no número de amastigotas, após 4 semanas de tratamento, com ligeira redução também das lesões.

“Com base nestes resultados, sugerimos o uso do ácido kojico em pomada para passar sobre os nódulos ou ulcerações. E já registramos duas patentes internacionais e uma nacional”, conta a pesquisadora. Mas ainda há muitos testes para fazer antes de desenvolver a pomada. O próximo passo é realizar os ensaios com primatas, para depois então chegar aos testes clínicos e ao desenvolvimento de um produto farmacêutico.

Para testar a eficiência do ácido kojico em roedores, a equipe da UFPA produziu pomadas com vários veículos, incluindo uma à base de triacilglicerídeos obtidos de sementes de cupuaçu (Theobroma grandiflorum).

Surpreendentemente, a pomada acelerou o processo de cicatrização. “Foi um acaso, usamos o cupuaçu por causa dos lipídios, para facilitar a permeabilidade da pele, mas descobrimos que pode ajudar, pois causou aumento impressionante de colágeno, que é importante na cicatrização. Se isso se confirmar em novos testes, pode diminuir o período de tratamento”, comemora Edilene Oliveira.

Fruto cupuaçu
A equipe da UFPA envolvida nesta pesquisa conta com 3 pesquisadores do Instituto de Ciências Biológicas e 2 da Química, mais um doutorando e um mestrando. Os ensaios foram feitos em colaboração com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Biologia Estrutural e Bioimagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (INBEB/UFRJ) e o Laboratório de Microscopia Eletrônica do Instituto Evandro Chagas, de Belém. Os recursos vieram da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Pará (Fapespa), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), do INBEB e da UFPA.

Agora é torcer para que as patentes não fiquem na gaveta e transformem logo as boas notícias científicas em opção de tratamento para as vítimas de leishmaniose da região amazônica. Existem 7 tipos de leishmaniose na Amazônia brasileira e a pomada de Aspergillus com cupuaçu – se aprovada nos testes – servirá para aliviar o problema de apenas um dos tipos. Mas já é uma excelente notícia para quem hoje só tem tratamentos quimioterápicos, caros, invasivos e lotados de efeitos colaterais.

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