sábado, 12 de abril de 2014

Dançando no escuro

As galáxias ao redor da Via Láctea em geral são absorvidas por ela. Mas por que duas estão prosperando?

 https://bio-orbis.blogspot.com/2014/04/dancando-no-escuro.html
A supernova mais brilhante dos últimos 400 anos parece um colar de pérolas cósmico. Ela foi vista em 1987 entre turbilhões de gás na Nebulosa Tarântula, que faz parte da Grande Nuvem de Magalhães.
VAMOS DESCOBRIR...

No céu do hemisfério Sul, a grande e a Pequena Nuvem de Magalhães mais parecem peças destacadas da galáxia em que vivemos. Antes os astrônomos achavam que as Nuvens sempre haviam orbitado ao redor da Via Láctea, mantendo as distâncias atuais, tal como outras galáxias-satélites menores, todas presas no mesmo campo gravitacional. Mas indícios recentes sugerem que, em vez disso, as Nuvens estiveram, durante grande parte de sua existência, bem mais distantes e agora experimentam uma rara aproximação com a nossa galáxia. Se isso se confirmar, podemos estar testemunhando o início de um pas de trois intergaláctico – uma espécie de dança sideral capaz de abalar a composição dessas galáxias, forjando bilhões de estrelas e planetas novos e, ao mesmo tempo, arremessando outros às profundezas do espaço.

Os astrônomos estão decifrando pistas que já sugeriam que as Nuvens sempre foram bem mais autônomas do que se imaginava. Elas são mais luminosas que as outras galáxias-satélites da Via Láctea, tanto que chamaram a atenção de Antonio Pigafetta – o cronista da primeira circunavegação do globo, empreendida por Fernão de Magalhães no início do século 16 –, o qual fez um comentário acerca de “numerosas estrelas que se mantinham agrupadas”. As Nuvens são brilhantes porque estão próximas da Terra e contêm muitas estrelas. As outras galáxias-satélites abrigam cada qual até 10 milhões de estrelas. Já a Pequena Nuvem de Magalhães engloba 3 bilhões, e a Grande Nuvem talvez chegue aos... 30 bilhões!

O resquício de uma supernova, com sua onda de choque rosada projetando-se a mais de 17 milhões de quilômetros  por hora, paira na Grande Nuvem de Magalhães como um ornamento iridescente.
Além disso, as Nuvens não se parecem com as desordenadas galáxias anãs esferoides ou as galáxias espiraladas do nosso céu. As Nuvens ficavam distantes e só agora se aproximaram da Via Láctea – a ponto de serem afetadas por seu campo gravitacional. Antes de topar com a Via Láctea, a Grande Nuvem de Magalhães pode ter sido uma clássica galáxia espiralada, tal como a do Triângulo (M33), que tem aparência impressionante, mas, na realidade, não é muito mais maciça que a Grande Nuvem.

Em 2006, uma equipe de astrônomos mediu, com a ajuda do Telescópio Espacial Hubble, o deslocamento das Nuvens de Magalhães, usando como referência quasares situados bilhões de anos-luz mais distantes e que, por causa disso, constituem um fundo relativamente estático em um universo no qual tudo está em movimento. Tais mensurações indicam que as Nuvens percorrem órbitas longas e excêntricas, que as teriam trazido para perto de nossa galáxia apenas em outra ocasião desde o início do universo.

A noção de que as Nuvens cruzaram nosso caminho apenas uma vez no passado é congruente com o fato de que ambas ainda contêm enormes quantidades do gás que serve de matéria-prima para a formação de novas estrelas. As galáxias-satélites que percorrem órbitas próximas de galáxias maiores acabam perdendo para elas o gás interestelar. Incapacitados assim de gerar novas estrelas, tais satélites viram uma espécie de comunidade sideral de aposentados, abrigando apenas velhas estrelas desprovidas de gás e nada mais. Com o tempo, muitas das galáxias anãs esferoides que acompanham a Via Láctea vão ser absorvidas por ela.

Imagens do telescópio Hubble mostram que a supernova  se dissipou ao longo do tempo, e fragmentos da explosão colidiram com um anel da matéria ejetada milhares de anos antes pela estrela agonizante, emitindo os raios X que destacam o anel.
Por outro lado, os astrônomos constataram que a Pequena Nuvem ainda continua a gerar novas estrelas de modo intermitente, algumas delas formadas nos últimos milhões de anos. Já a Grande Nuvem é uma fábrica de estrelas. Chama a atenção a avermelhada Nebulosa Tarântula, um gigantesco berçário de estrelas que está a 160 mil anos-luz da Terra, mas brilha tanto que, ao ser observada por um telescópio de grande porte, sua luminosidade atravessa o visor como se fosse o feixe de uma lanterna. O vermelho da Tarântula deve-se ao que os astrônomos chamam de “hidrogênio excitado”. O gás é agitado pela forte luminosidade emitida por estrelas gigantes, as quais queimam com tal fúria que esgotam seu combustível nuclear em poucos milhões de anos, em vez de bilhões de anos, como no caso de estrelas menores, entre elas o nosso Sol. Em seguida, essas estrelas gigantes explodem, na forma de supernovas. Quando uma estrela gigante azul na região da Tarântula virou uma supernova em 23 de fevereiro de 1987, astrônomos do mundo inteiro notaram o fenômeno. E desde então eles continuam a observar seus fragmentos dispersos.

Cem vezes mais maciças que o Sol, estrelas brilham através da Nebulosa da Tarântula, na Grande Nuvem de Magalhães. O gás e a poeira gerados pela explosão estelar servem de matéria-prima para novas estrelas, fazendo dessa área um berçário ativo na região da Via Láctea. 
A Via Láctea e as Nuvens de Magalhães parecem destinadas a se manter próximas. Mas a dança entre os três corpos celestes poderá resultar em fusão? Ou as Nuvens vão apenas se aproximar e se separar, atravessando sua existência como um casal sossegado que, a cada bilhão de anos, se reencontra em um hotel no centro da cidade para uma orgia de geração de estrelas? Embora nenhum ser humano vá viver o suficiente para ver o destino dessas galáxias, os cientistas da nossa geração conhecerão algo mais dos passos dessa dança, e poderão ouvir os débeis ecos de sua música.

Fonte: National Geographic Brasil

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